Page 12 - Agenda Municipal de Janeiro/Fevereiro/Março
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CARNAVAL







        CARNAVAL DA NAZARÉ:


        NÃO É BONITO, É VIVIDO


                  Carnaval da Nazaré não se explica,  panhada de vozes mais ou menos afinadas de quem
                  Vive-se.                  conduz, nos corredores improvisados, nas rodas que
                  E quem tenta explicá-lo de fora, ex-  se  formam  do  nada.  Vive-se  no  frenesim  das  mar-
         O pressa sempre uma sensação  de   chas, naquele momento em que já não se sabe quem
        alegria  e  de  satisfação  que,  quem  não  o  vive,  não   é de que grupo, mas toda a gente sabe a letra.
        percebe.                             As  marchas  são  um  mundo  à  parte.  Cada  uma
          Este Carnaval não é dos que apresenta um car-  com  o  seu  dizer.  Um  dialeto  criativo,  afiado,  que
        taz vistoso para fora. Ele nasce da necessidade de   quem é de fora nem sempre apanha, mas quem é de
        extravasar  alegria  para  sacudir  o  cansaço  sentido   cá entende logo. Ali cabe tudo: a sátira, a hipérbole,
        pelos homens do mar, pescadores sofridos, de mãos   o exagero, o gozo fino e o gozo grosso. Tanto se fala
        rachadas e vida incerta, que encontravam no Entru-  bem como se fala mal — e muitas vezes é a mesma
        do um intervalo para virar o mundo do avesso. Um   coisa. Porque aqui, gozar também é uma forma de
        tempo em que se podia gozar com tudo e com todos   carinho, mesmo quando dói.
        — até com a própria miséria, que essa nunca faltou.  Há músicas “de ficar mijada cu riso”.
          Começou por ser festa de homens. Homens mas-  E  outras  “de  ficar  pa  na  viver”,  que  batem  onde
        carados  com  o  que  havia:  trapos  achados,  roupas   não se esperava e obrigam a rir… para não chorar.
        deixadas  nas  tabernas,  saias  emprestadas,  caras   Gostar  do  Carnaval  da  Nazaré  não  é  dizer  que
        pintadas à pressa e vozes afinadas… mais ou me-  gosta.
        nos. O importante não era estar bonito. Era estar lá.   É aguentar as pernas quando já não querem.
        E dizer. Dizer tudo o que o resto do ano se engolia.  É não ir dormir porque “ainda falta isto e aquilo”.
          Ao sábado magro saíam as bandas infernais. Não   É entrar numa roda sem saber como saiu de casa.
        vinham pedir licença. Vinham anunciar: “Ó freguesia,   É cantar uma marcha que já não se ouvia há anos
        prepara-te, que isto agora vai aquecer.” O som era   como se tivesse sido escrita ontem.
        bruto, repetido, martelado até ficar entranhado na ca-  Aqui, o Carnaval não é bonito.
        beça. Marchas que não se esquecem, mesmo quan-  É excessivo.
        do se tenta. Marchas que se cantam até ficar rouco,   É cansativo.
        ou como se diz cá: “até ficar sem pinga de voz, mas   É desorganizado.
        cheio de alma.”                      É genial.
          E depois… depois vem o resto.      E quando alguém  pergunta  porque  é que isto é
          Ou melhor: vem tudo.              assim,  a  resposta  sai  fácil,  quase  automática,  com
          O Carnaval da Nazaré vive-se na rua, nos bailes   aquele encolher de ombros típico:
        — sim, ainda temos bailes, e que bailes! — nas cole-  “É d´ceda a nossa gente!”
        tividades, nos cafés, nos carros com a música acom-
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